construindo o presente


Cartas para o Painel do Leitor da Folha de São Paulo. Umas publicadas, outras não; e vamos seguindo...
10/02/2016
Acertaram muito bem o colunista Clóvis Rossi e o leitor José Costa Júnior, respectivamente o autor da coluna de 07/02 "Uma guerra civil estúpida" e um missivista do Painel do Leitor. Também observo, na midia em geral, e no debate privado em particular, o mesmo achado do estudo do Pew Research Center: "Muitos, em cada partido, negam, agora, os fatos dos outros, desaprovam o estilo de vida dos outros, evitam a vizinhança dos outros, impugnam os motivos dos outros, não conseguem digerir as fontes de notícias dos outros e trazem diferentes sistemas de valores para instituições fundamentais como religião, casamento e paternidade". Por aqui nomeou-se o fenômeno como Fla-Flu, mas é o mesmo fanatismo irracional (haverá algum fanatismo racional?) que assola todo o mundo, tomando como fonte de inspiração os mais diversos preconceitos. Embora não seja torcedor nem do Fla e nem do Flu, incomoda-me a nomenclatura, pois parece sugerir que todo torcedor de futebol é um idiota, isto é, aquele que só pensa em si mesmo e que desconsidera os outros.
Também o nosso Painel do Leitor parece contaminado por este mal, privilegiando as opiniões mais acirradas, e enviezadas pela desconsideração da opinião do outro. Talvez este espaço deva manter-se assim como está, mais acirrado, e o leitor mais comedido, que embora firme em suas crenças deixa espaço para a dúvida e para o contraditório, mereça um outro espaço, também de opinião, mas de opinião reflexiva. Poderia mesmo chamar-se "Painel da Reflexão do Leitor", evitando-se o termo 'opinião', que se refere à forma mais rasa de pensamento, normalmente desvinculado ou pobremente vinculado a fatos, e calcado em afetos pessoais, de origem muitas vezes sombria. Fica a sugestão.

17/02/2016
Talvez científica ou talvez um pouco encobridora a análise do Hélio Schwartsman - "Imaginando o pior". A lógica do texto não consegue esconder o que escapou, sem permissão do autor, isso é, a escolha da frase do Eduardo Paes e do próprio Eduardo Paes, logo no início da coluna. A crise na saúde pública do Rio de Janeiro dispensa comentários, e a 'zika' torna-se neste contexto, apenas mais um ingrediente improvável e certamente indesejável nas equações dos políticos e administradores, representados pelo prefeito do Rio de Janeiro. O que escapou foi a denúncia de que estas equações subvertem as prioridades, colocando a sobrevivência no cargo e a sobrevivência como possibilidade de outros cargos futuros, acima das necessidades e da sobrevivência das pessoas a quem deveriam servir. Escapou a denúncia de que não há planejamento ou prevenção, apenas reação ao temor maior, da perda do poder e da possibilidade de poder. Escapou a denúncia de que o que a incompetência esconde não é a falta de pensamento, mas o pior dos mundos, onde o sujeito pensa que pensa, guiado apenas pelo instinto dirigido ao momento, descartando o passado e desprezando o futuro.

18/02/2016
Decidi aceitar a provocação, sempre bem vinda, do Contardo Calligaris, em sua coluna "Desigualdade", na Folha de hoje. Sendo a pessoa sensível que é, seguramente compreende que o termo desigualdade, finalmente objeto de reflexão, não pretende contrapor-se à impossível igualdade plena. As pessoas são diferentes; os desejos são diferentes. Isso posto, tem-se que, de fato, a desigualdade é o maior problema de nosso tempo ( e também, provavelmente, de todos os tempos), em primeiro lugar, por ser "auto-alimentada"; num mundo onde a riqueza cresce desproporcionalmente ao crescimento populacional, para haver 'mega-ricos', haverá de existir a classe dos 'mega-pobres', o que concordamos todos ser uma iniquidade. Também os métodos de enriquecimento podem e devem ser questionados: a lei parece não atingir igualitariamente os ricos e os pobres; os primeiros tem informações privilegiadas, grandes advogados, o dito 'network' de amizades e relações, as heranças milionárias, as formas de proteção patrimonial, entre outras facilidades para o acúmulo e perpetuação do acúmulo de riqueza, enquanto os pobres, quando conseguem, tem apenas acesso à um serviço público no mais das vezes deficiente e insuficiente. Ainda, o descaso pela desigualdade ou seu oposto, do modo citado na coluna - efeito Facebook - parece-me correlacionar-se bem com o também citado desejo. Toleramos a desigualdade porque desejamos, alguns de nós ou muitos de nós, estarmos do lado 'certo' da equação, desfrutando sem impedimentos os benefícios da fortuna. Finalmente, concordo que o 'problema' maior é a pobreza, mas não há como deixar de assinalar que ela só existe porque a desigualdade (a desigualdade extrema) existe. 
Num mundo onde todos venham a ter a possibilidade (real) de acesso à educação, saúde, moradia, cultura, segurança, lazer, alimentação, água, equipamentos de saneamento básico e de convívio social, ainda haverá desigualdade, mas talvez se consiga a tal da 'vida boa' do Harry Frankfurt, ou de outro modo, extinguir-se-á a pobreza e ainda existirão os ricos. Não é utopia, é a Dinamarca, a Noruega, a Suécia, entre outros.

22/02/2016
Preocupa-me muitíssimo manchetes como a de hoje na Folha - "Delcídio ameaça entregar colegas caso seja cassado". Compreendo a função da manchete, mas uma tal como a de hoje coloca em risco a credibilidade do jornal. Vejamos o que diz a matéria:"'Se me cassarem, levo metade do Senado comigo', afirmou a interlocutores quando ainda estava preso". Os tais interlocutores não são nomeados e a ameaça, se é que existiu, de fato, pressupõe que o senador sabe de coisas no mínimo indecorosas - cassação por falta de decoro parlamentar. Se tem conhecimento delas, deveria falar independentemente de ser ou não cassado; se diz que sabe e não fala, deveria voltar para a prisão por obstrução da justiça, e ser cassado por falta de decoro - ameaçar colegas ou mentir; e, finalmente, se o jornal anuncia a ameaça desta forma, deveria nomear os tais interlocutores para que eles confirmassem ou negassem as 'ameaças', atendendo a princípio básico do jornalismo que é a confirmação de fontes. Ainda que as fontes desejassem permanecer anônimas, uma confirmação da veracidade das ameaças deveria ter ficado clara no texto da reportagem, respaldando assim a manchete do jornal.

22/02/2016
Meu caro Gregório, tudo o que você diz que um dia será estranho já é escandalosamente estranho. O mais estranho de tudo é tudo isso estar escancarado e a maioria das pessoas aparentemente não se dar conta de tanta estranheza.

29/02/2016
Muito pertinentes os artigos de Marcelo Rede e Manuel Palácios na Folha de hoje. Preocupante que se tenha, ainda que atabalhoadamente, cogitado suprimir  parte da história da civilização ocidental e do ensino de literatura nas etapass fundamental e média da formação de nossos estudantes. Ao contrario, dever-se-ia acrescentar a história dos africanos e dos indígenas, grande componente de nossa cultura, e também os grandes nomes da literatura classica e da filosofia, abrindo possibilidades e incrementando capacidades para toda uma geração. Fechar-se sobre si mesmo produz apenas idiotia.

07/03/2016
Sensacional a coluna do Duvivier - "Dúvidas de um ignorante". Sua releitura do "sei que nada sei" faz dele um jovem sábio, buscador de dúvidas, encontrador de incertezas; uma espécie de Diógenes, com sua lanterna, buscando um homem honesto.

11/03/2016
Prezado Sr Marcos Pereira, o Brasil não é um fracasso. O Brasil é um país de muitas contradições, ainda atrelado à uma confiança meio tola em personagens mágicos que resolvem com a caneta ou com balas de prata os problemas estruturais que nos afligem desde sempre. O Brasil não é um fracasso, mas é "desguiado" por uma elite política, esta sim, fracassada: não cumpre o que promete, não cumpre a lei, não serve ao povo, não serve a ninguém, exceto a si mesma, em conluio, como agora vemos e sempre suspeitamos, com uma elite empresarial tosca e também fracassada. O Brasil não é um fracasso. Fracassados são os empreendedores que não empreendem, que não atuam dentro das leis, que usurpam o bem público para auferir um sucesso irreal e ilegal. O Brasil não é um fracasso, mesmo com os índices que o senhor aponta e que muito nos envergonham, mas que são o fruto da política que não é política, da política que se faz apenas pela negociata vulgar.




Escrito por Gustavo A J Amarante às 16h27
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