construindo o presente


A necessidade de Deus

Contribuição para o grupo Religião, Fé e Psicanálise:

A necessidade de Deus

Reflito sobre uma frase de Georges Battaille (O Erotismo, 1957): “O homem saiu da animalidade trabalhando, sabendo que morria e, deslizando de uma sexualidade sem vergonha para uma sexualidade envergonhada.” Saiu, portanto para o desamparo, para a angústia e para o desejo.
Saiu para o desamparo de não ter todas as suas necessidades supridas pela vida no paraíso, no útero, ou no nada que antecede a vida – ganharás o pão com o suor da tua testa; saiu para a angústia de saber-se mortal, desconhecendo a essência do ser e do nada, e também o momento do encontro com o si mesmo; e saiu para o desejo, para o desejo do desejo do outro, sempre misterioso e quase tão icognoscível quanto o próprio ser e a própria morte.
A idéia de Deus, portanto, é a idéia da possibilidade de retorno ao paraíso perdido, onde não há desamparo e nem angústia, e o desejo se realiza em si mesmo e no outro, simultâneamente, fazendo do singular o universal, da parte o todo; Deus é a nostalgia da perfeição, é a saudade da verdade absoluta.
Entendo a necessidade de Deus como o ideal da hospitalidade, do amparo, da ausência de angústia e, da presença do desejo subsumido. A necessidade de Deus é a necessidade de ser um com Deus; de transformar a imperfeição na perfeição, o profano em sagrado, a prisão em liberdade, a inveja em amor e gratidão, o ser que não é naquele que é.



Escrito por Gustavo A J Amarante às 11h30
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19/03/2016

Não faz muita diferença, do ponto de vista que me chama a atenção, se os manifestantes de ontem eram "o povo" ou eram militantes, do mesmo modo que não faz diferença quem estava na Avenida Paulista no domingo. O que eu vi foi, ao contrário do que dizem por aí, que o povo brasileiro, militante ou não, está maduro para a democracia. Milhões de pessoas sairam às ruas para defender posições diferentes, e exceto algum episódio pontual e isolado, tudo transcorreu de modo pacífico. Haviam muitos, de um e outro lado, pedindo ou exigindo algo que diz respeito aos dois lados: respeito às leis, igualdade diante da lei, combate à corrupção, inclusão social, redução da desigualdade, reforma do modo de se fazer política, melhora na representatividade dos eleitos, punição aos culpados independentemente de partidos, entre outras demandas. O povo, de verde e amarelo ou de vermelho, manifestou-se de modo a dar um exemplo a seguir para toda a nossa classe política, um exemplo de civilidade. Há luz no fim do túnel.


20/03/2016

Lendo o jornal nas últimas semanas vejo que a guerra das certezas continua e escala patamares cada vez mais agressivos, cada lado com a sua verdade incontestável. Chama a atenção que apenas os colunistas mais jovens, o Antonio Prata e o Gregório Duvivier por exemplo, parecem ainda abrir espaço para a dúvida e para o questionamento. Os 'grandões' tomaram partido e chega a ser cômico o confronto de seus argumentos, sempre iguais e de sinais opostos. Hoje, o Prata nos brindou com uma dura realidade, esta sim incontestável, quase escondida no final de sua coluna, "Não é tão vermelho ou amarelo" (Cotidiano, 20/03/2016): sempre há os que sofrem, os deserdados, os desamparados, os desesperançados - "...parou diante de nós uma menininha de uns seis anos, descalça, com a cara toda suja: "Compra bala, tio? Compra bala senão minha mãe não deixa eu ir pra casa. Compra?"


01/04/2016

É digno de comemoração e celebração que ainda haja uma esquerda pensante e que se manifesta abertamente na grande imprensa. Hoje o Vladimir Safatle (Não haverá mais conciliação, Ilustrada) foi quase irretocável. A elaboração sobre legalidade e justiça foi perfeita, e seguramente mereceria outras colunas para o seu aprofundamento. Já dentre os três argumentos apresentados como fatos que surrupiam a legitimidade do impedimento, considero o primeiro como uma obviedade primorosa e inquestionável, mas há que se lembrar que todos esses senhores foram eleitos pelo povo, que ainda não conquistou o direito de "recall" eleitoral, e estão lá, na comissão do impedimento, com o aval do Supremo Tribunal Federal, conforme as regras, auto-preservantes, da casa. O segundo e o terceiro argumentos parecem sugerir que os erros passados e/ou os erros dos outros, tornam os erros do atual governo passíveis de desconsideração. Há ainda uma contradição interna no terceiro argumento, isto é, se Temer não pode ser empossado por ter cometido os mesmos erros que Dilma, então como sustentar a permanência da presidente?
Os apoiadores do governo afirmam, com razão, que sem crime de responsabilidade não pode haver impedimento; o outro lado afirma ter havido crime de responsabilidade; e finalmente, nossos juristas parecem não concordar em nada, trazendo confusão e irritação para ambos os lados. Este é um momento difícil. Que seja observada a lei e que a lei sirva à justiça, assim haverá, sem dúvida, reconciliação.

10/04/2016
Caro Clóvis, sobre o seu "No último circulo do inferno" só me resta lembrar-lhe que no fundo do poço há sempre um alçapão. Ao Janio, com sua "Lição da escola", gostaria de dizer que a ponderação é bem vinda, mas que a frase, "Mas Janot invocou-se também com "as circunstâncias anormais da antecipação da posse" de Lula. É claro que se tratava de proteger Lula de novas exorbitâncias." e a conclusão de sua coluna, ainda traem a sua incapacidade de realizar o luto pelas perdas representadas pelas ações de alguns em detrimento de uma idéia que sem dúvida é boa, a saber, aquela que visa à redução das desigualdades. E, finalmente, gostaria de agradecer ao Prata, com sua "Carta pro Daniel", que me levou às lágrimas, por ter tornado o meu dia muito melhor; ainda há motivos para alegria em meio a esta orgia de politicagem nefasta que nos assola.
Mesmo com alguns equívocos, sempre apontados pela ombudsman (ombudswoman), a Folha de São Paulo continua a ser o jornal mais plural do mercado. Seus colunistas, de todos os vieses, constituem uma luz no fim do túnel.

12/04/2016
Não faz a menor diferença se foi por engano ou proposital, o audio "vazado" do vice presidente. Se foi por engano, o sujeito é distraido demais para o cargo; se foi proposital, o sujeito é intempestivo demais para o cargo. De qualquer forma, o que se vê é que o Temer é uma temeridade, e assim fica muito difícil ver nele uma opção, mesmo uma opção ruim, para dar seguimento à este des-governo que aí está. E que os deuses tenham piedade de nós.

15/04/2016
Para mim tanto faz quem será o presidente na segunda-feira. Por outro lado, me preocupa muito os tais pactos aludidos tanto pela presidente como pelo seu vice, caso venha a assumir a presidencia. Teremos mais do mesmo ou qualquer dos dois terá a coragem para ser estadista? Continuaremos na velha cantilena do aumento de impostos e seus sucedâneos malignos, principalmente para os mais pobres, ou haverá alguma criatividade, uma solução diferente? Haverá ajuste do tamanho do estado, profissionalização dos cargos públicos, impostos ajustados para a renda, poupando os salários, impostos incidindo sobre os que não pagam, vigilância e punição aos sabidos de sempre? Ou, para nossa desgraça, continuaremos no caminho das soluções que nada solucionam, ou que socializam o custo, tornando os mais pobres mais pobres e os mais ricos mais ricos?

25/04/2016
Fernando Haddad persiste terceirizando os erros do seu partido, o PT, no qual votei diversas vezes, recusando o reconhecimento dos problemas que os afligem e, assim, castrando as possibilidades de reconstrução de uma proposta progressista e dando margem a um conservadorismo que preferíamos mais contido. Não há dúvida de que inúmeros fatores contribuíram para a atual crise do governo, tais como alianças frouxas calcadas em interesses paroquiais e por vezes escusos, representação pífia, legislação incompreensível, promiscuidade entre o público e o privado, financiamento duvidoso de eleições, excesso de marketing, falta de planejamento e metas para o país, e por aí vai; mas do lado do governo, o erro foi mesmo mentir para a população e a seguir pedir-lhe para pagar a conta dos erros que se acumularam, incluídos nesse grupo os enormes escândalos de corrupção. Os ganhos sociais estão ameaçados, de fato, por esses erros e por esse erro maior, a mentira de pernas muito, muito curtas.

30/04/2016
Ainda nem começou e já começou mal (Sob pressão, Temer reduz meta de cortar ministérios). Como era de se esperar, o "novo governo" já dá sinais de repetir os mesmos erros de sempre: acomodar supostos aliados em ministérios superfluos e também, porque que não supor, em outras instâncias do estado. A governabilidade, esta justificativa espúria para uma política clientelista e corrupta, já seduz os corações e mentes dos que falam muito em reformas e mantém insistentemente apenas as formas, arcaicas, ilegítimas, prejudiciais ao país. Assim confirma-se que o governo Temer alude que será mais do mesmo que combate e acusa.

06/05/2016
Ilustrativa a polêmica do Contardo e do Marinho (Tréplicas): de um lado o império das incertezas e do outro a primazia das certezas absolutas; de um lado o pensamento voltado para o abstrato e para o singular, do outro, os números torturados para propósitos definidos. Lembrei-me de um discurso de Thomas Mann aos alemães em 1943, no qual dizia que a verdade, dependendo da boca que a enuncia, transforma-se em mentira.

10/05/2016
O prefeito Fernando Haddad conquistou uma quase unanimidade rara na nossa cidade, ao lado de Celso Pita e do Gilberto Kassab. Os dois últimos abandonaram a cidade para tocar projetos pessoais e constituíram-se nos piores prefeitos que São Paulo foi obrigada a suportar. Haddad governa erraticamente, agradando pequenos grupos específicos, e também deixando a cidade à sua própria sorte. Diferentemente de seus colegas, ele será, mesmo rejeitado, lembrado pela história como o prefeito de uma única medida correta. Não, não foi o Uber e nem as ciclofaixas, e nem mesmo o fechamento da Avenida Paulista; a medida corajosa e correta foi a redução da velocidade dos automóveis dentro da cidade, medida civilizadora e que vem salvando vidas. Esta medida foi redentora para ele e penso que talvez seja o seu maior capital político - o prefeito ruim que salvou vidas.

22/05/2016
Eu consigo entender os calculos e as contas que se apresentam; eu consigo compreender a urgência do tema, mesmo considerando as inúmeras outras urgências que se impõem. O que me fica como dúvida é se nesta reforma estará incluída a mudança nas aposentadorias dos poderes executivo, legislativo e judiciário, ou se para eles tudo fica na mesma: possibilidade de aposentadoria após dois mandatos, aposentadoria integral, possibilidade de se acumular aposentadorias, e assim por diante. Se vamos nos sacrificar, então que o sacrifício seja de todos, e não dos mesmos de sempre, os trabalhadores e pagadores de impostos.

02/06/2016
Pensei em alguns adjetivos para a pauta bomba aprovada pelo congresso, a saber, o aumento do funcionalismo e o consequente rombo nas contas públicas, mas percebi que seriam impublicáveis. Assim, para adjetivar educadamente esta total desconexão entre servidores públicos (seriam mesmo servidores, e públicos?) e o público pagador de impostos em geral, ocorre-me: falta de vergonha na cara, desonestidade no trato com a coisa pública e com o público, indiferença para com o outro (sendo o outro apenas todo o contingente dos habitantes do país), irresponsabilidade diante do momento crítico, arrogância por se acharem superiores aos demais e isentos dos sacrifícios que impõem à nação, prepotência ao pensarem que vamos todos nos calar diante do descalabro (aguardem as eleições), estupidez por não se darem conta do estrago que causam a si mesmos e aos demais, ganância por não se satisfazerem com os salários e benefícios já iníquos que recebem, e vou parar por aqui, porque agora começam a me pressionar novamente os adjetivos impublicáveis.
Senhor Temer, recolha o seu aplauso, honre o seu cargo, e vete esta barbaridade.

11/06/2016
Sempre impecável o Vladimir, pontual, claro, lúcido. Arrisco-me a complementar o seu texto de sexta-feira, observando que grande parte da culpa pela manutenção da "crise continua" que evita a crise propiciadora de mudança é dos pensadores. Estranho? Nem tanto. Vivemos há séculos sob a égide de um único sistema econômico e suas variações, a saber, o capitalismo em suas versões capitalismo  privado e capitalismo de estado. Não há proposta de outro sistema, apenas tentativas frustradas de domesticação de um sistema de construção e manutenção do poder de uns poucos em detrimento da maioria. Sabe-se que o capitalismo é muito eficiente para a geração de riquezas, do mesmo modo que se sabe que também é inquestionável a sua capacidade para gerar desigualdades progressivamente mais profundas.
De minha parte, gostaria de poder propor uma novidade, mas não sou do ramo da economia. Por outro lado, educação de boa qualidade e universalizada, que ensine a pensar e a aprender, que contemple a diversidade e a pluralidade da vida humana, que não se omita na elaboração de perguntas e não se satisfaça com respostas fáceis, configure-se numa possibilidade futura de mudança real.


Escrito por Gustavo A J Amarante às 10h49
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